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Rio Branco – o começo de uma ação

A expectativa sempre nos acompanha. Não importa a idade, nem o tempo ou a experiência vivida. Essa sensação sempre está presente. Em Rio Branco não seria diferente. Uma nota etapa começaria com essa primeira Oficina de Inclusão Digital e Comunicação Comunitária, dentro das ações desse Projeto da Rede em parceria com a Fundação Banco do Brasil. As experiências desenvolvidas no passado, apontava que a aplicação de uma metodologia participativa, gestada nos conceitos da Teoria da Organização, na qual o conhecimento se torna ferramenta  para ações transformadoras e educativa prática e concreta. Meu desejo mais que repassar informações ou técnicas criando multiplicadores. Repetir modelos não serve a construção de ações construídas coletivamente. É preciso ir muito além. Cada ação é um passo na comunicação e propagação de novas práticas, fundadas no humanismo. Queria mais que passar ferramentas para a Inclusão Digital e Comunicação. A Comunicação deve servir à libertação de mentes, pessoas, povos e sonhos. Para tanto seria preciso formar propagadores da criatividade mobilizadora, capazes de levar a discussão e o trabalho, em todas as formas e veículos processados ao longo da história da humanidade. As experiências regionais, étnicas, profissionais, cientìficas, tecnológicas e acadêmicas precisam ser canalizadas a busca de um mundo melhor, mais justo e fraterno. Se não servir para isso não me interessa. Cheguei a capital acreana em uma madrugada estrelada e quente, com uma leve neblina e um céu estrelado.

Wilson, o taxista, me esperava no local indicado. Recebeu-me como um velho amigo, sorridente, contando histórias de seu povo e sua origem dos seringais. Falou bastante sobre a mudança do fuso horário. O governo federal havia reduzindo em uma hora a diferença com a hora de Brasília. Contou-me que as sete horas da manhã o dia ainda não havia se formado. Nesta ainda está escuro. Quem mais tem sofrido são as crianças ao irem para a escola. A população da região não se acostumou com a mudança. Disse-lhe que essa mudança do fuso horário havia sido uma exigência da Rede Globo devido suas novelas e outras programações. Essa alteração foi contra as leis da ciência e a natureza humana.  Certamente trará algum transtorno fisológico, já que no escuro repousamos e no dia claro trabalhamos. Wilson falava com orgulho de seu povo, sua história e sua terra. Relatou suas experiências em viajar pela Transoceânica, rodovia que vai do Acre ao Pacífico, atravessando três países: Brasil, Bolívia e Peru. Apenas lhe fazia perguntas, ajudando-lhe em suas narrações. Conversamos bastante entre o aeroporto e o hotel. Uma boa conversa bastante receptiva. Uma primeira impressão positiva.

Ao lado do Hotel João Paulo, onde fiquei hospedado, havia um cinema. Os hospedes não pagavam ingresso. Na primeira noite na cidade assisti Transformens. Filme infantil com excelentes efeitos especiais. A sala estava repleta. Crianças e seus familiares. Antes de terminar a sessão sai, minha cabeça estava voltada para a oficina que aconteceria dois dias depois. Durante a preparação dos equipamentos conheci Ismael, funcionário do hotel que é o faz de tudo. Contou-me que tem apenas um dia de folga na semana e trabalha 10 horas por dia. Perguntei-lhe se recebia as horas extras. Contou-me que o dono do hotel lhe pagava R$ 150,00 a mais por mês para compensar esse trabalho. Conversamos a respeito e ele me disse: “não posso fazer nada, preciso desse trabalho, se denunciar não consigo outro e não terei como sustentar minha família”.

Em primeira noite em Rio Branco havia jogo do Corínthias, era um dos jogos da semi final da Copa Brasil. Sai em busca de um local onde poderia assistir o jogo do Timão, podendo assim comemorar mais uma vitória de meu time. Caminhando sai do hotel, parei em um posto de gasolina para perguntar aos bombeiros onde haveria um bar em que fosse passar o jogo. Nisso um rapaz, que abastecia seu carro, ouviu eu fazer a pergunta e disse que sabia de um bom local e me levaria até lá. Entrei em seu carro e fomos ao bar Esquina do Sertão. Lá havia um enorme telão em que o jogo seria transmitido. Pedi uma peixada, tomei uma Original e comemorei mais vitória do Timão. A atitude desse rapaz, em me levar até o local onde pudesse assistir o jogo, mostrou o lado hospitaleiro e receptivo dos acreanos.

Em minha primeira manhã na cidade fiz todos os contatos. A Coordenação regional do GTA Acre era de Lazara, jovem militante, integrante da direção da Rede Acreana de Homens e Mulheres – RAHM, estudante e apaixonada. Ela estava em período de provas no curso de Administração. Somente poderia me encontrar no dia seguinte. Procurei Eliandro, membro do Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre – CEDDEP, entidade responsável pela Rádio Comunitária Gameleira FM. Levou-me a sede do CEDDEP e da RAHM, mostrou-me a cidade e conversamos bastante. Contou-me histórias de sua convivência com o governador acreano, do tempo das campanhas eleitorais passadas e as dificuldades encontradas para desenvolver alguns trabalhos. Depois de tomar sorvete de frutas regionais Eliandro me levou para conhecer a centenária árvore de gameleira a beira do rio acre, que dá nome ao bairro e à rádio do CEDDEP.

Todos e todas participantes da oficina já haviam chegado à cidade. Participariam representantes das coordenações regionais do GTA do Acre e Rondônia. Estávamos hospedados no mesmo lugar, onde também seria realizado o curso. Na abertura estavam presentes 13 pessoas, 6 de Rondônia e 7 do Acre, sendo 9 homens e 4 mulheres.

1 – Jaed – CDHEP – Rio Branco – AC

2 – Antônio (Kabeça)– STTR – Feijó – AC

3 – Fernando – STTR – Tarauacá – AC

4 – Eliana – STTR –Epitaciolândia – AC

5 – Lazara – RAHM – Rio Branco – AC

6 – Márcia – Justiça Comunitária – Rio Branco – AC

7 – Jailson – RAHM – Rio Branco – AC

8 – Edmar (Xis)– MHF – Porto Velho – RO

9 – Eliezer – Kanindé / MHF – Porto Velho – RO

10 – Marcelo – Rio Terra – Porto Velho – RO

11 – Gasodá – Suruí – RO

12 – Edjales – Kanindé / MHF – Porto Velho – RO

Logo no início Sandra assumiu um papel colaborador com os trabalhos. Ativista da ADA – Açaí, entidade ambientalista de Porto Velho, demonstrou uma sensibilidade enorme em colaborar com as atividades. Como tinha muitas atividades, a ajuda de Sandra deixou-me bastante tranqüilo. Tido transcorreu tranqüilo na oficina. Havia alguns participantes de Porto Velho que não se entrosaram. Trouxeram para as atividades disputas que existem em organizações políticas, especialmente dentro do movimento estudantil. Trabalhar a comunicação ou qualquer outra atividade, seja profissional, acadêmica, política ou mesmo um relacionamento, exige que se pratique uma pista de mão dupla. Especialmente ao trabalhar a comunicação com um público plural, indo de indígenas a ativistas de Hip Hop torna necessário uma troca permanente dos conhecimentos e saberes. Meu papel, além de passar questões técnicas e práticas era conduzir o processo. Acredito que a formação de grupos, mesmo com dentro de um conjunto com 12 pessoas, possibitaria um melhor resultado pedagógico para as diferentes experiências e vivências dos integrantes da Ofina. Trabalhei com 3 grupos, cada um com 4 integrantes. Alguns ativistas do Hip Hop não aceitaram e tentaram atrapalhar a metodologia. No entanto tudo transcorreu como planejado. Durante dois dias trabalhei conceitos e práticas na área da comunicação. Após as exposições feitas através de vídeos, com vários ativistas na área, realizava um aprofundamento sobre a  questão e colocando uma pergunta-problema para ser respondida pelo grupo. A primeira visava fazer um diagnóstico da história local nas comunicações. Isso foi muito rico pois trouxe uma compreensão aos participantes e auxiliou-me na condução dos trabalhos, já que produzia um quadro da história das lutas do povo das regiões representadas.

Na primeira oficina, terra de Chico Mendes, foram identificados os principais pontos da história local pelos participantes: (…)

Como a maioria dos oficineiros estrava hospedado no mesmo local nos encontrávamos no café da manhã. Na hora do almoço nos reuníamos em um mgesmo local. Pela noite cada qual formava seu grupo e saia pela cidade. Fui conhecer a Gameleira, localizada na beira do Rio Acre, com vários bares e muitos jovens, bebendo e dançando. Lugar de azaração e namoro. Numa das noites saí com o pessoal do Hip Hop para esse local. Ali conheci uma garota, chamada Mileide, de 20 anos, grávida e acompanhada da mãe, uma tia, uma irmã e algumas crianças. Todas estavam tomando cerveja e a garota se aproximou buscando conquistar alguém na mesa com uma enorme naturalidade. Sua mãe e a barriga que ela carregava pareciam lhe dar impulso à busca de alguém.

Rio Branco me chamou a atenção pela organização e seu povo prestativo. Pode-se perceber um orgulho das pessoas que transitam pelas ruas ou em seus locais de trabalho. O comportamento do Wilson, o motorista de táxi, tornou-se o principal exemplo dessa força e hospitalidade. A capital do estado onde o símbolo maior foi Chico Mendes, tinha, ao menos nas ruas do Centro, um ar de organização e limpeza. A obra que foi o motivo do assassinato de um governador do estado, o Canal da Maternidade, tinha um ar de modernidade e beleza. Muitas flores, pistas de cooper, bares, restaurantes, parques e no centro as águas daquilo que foi um rio um dia. Com bons e caros restaurantes reúne em seu centro gastronômico a elite da cidade. Na beira do rio, de um lado a Gameleira e do outro o Mercado Municipal, com suas lojas de souvenires, comida regional e as três estatuas de seringueiros.

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